Insólitos e Saboroso Frutos dos Campos de Carvalho

 

Questão de um vestibular de uma realidade alternativa:

Qual é o título do livro mais famoso de Campos de Carvalho?

a) A Chuva Sutil

b) A Lua Vem da Bulgária

c) O Púcaro da Ásia

d) Vaca de Nariz Imóvel

e) Nenhum desses.

 

Alternativa correta, letra E.

Os títulos dos livros de Campos de Carvalho são tão deliciosos que não resisto a brincar com eles. Mais que brincar, quero saboreá-los como uma criança feliz que tem quatro doces ao alcance das mãos! Ela dá uma lambida no pirulito, depois encosta a ponta da língua no algodão doce, em seguida morde a maçã do amor e termina com uma dentada no chocolate.

Os títulos verdadeiros são A Chuva Imóvel, A Lua Vem da Ásia, O Púcaro Búlgaro e Vaca do Nariz Sutil.

Não dá vontade de abocanhá-los?

Mergulhar em suas páginas?

Mas, não vou falar sobre o autor, sobre sua obra, seu estilo…

Vou simplesmente lhe mostrar um capítulo de seu primeiro livro, de 1956, A Lua Vem da Ásia (Primeiro na opinião do autor, que renega o anterior, de 54, chamado Tribo.), e deixar você se a sós com a prosa de quem já foi chamado pela imprensa da época de debochado, imoral, satânico e mesmo louco.

Capítulo CLXXXIV

(Nota: Este é na verdade o 9º capítulo! Os anteriores são, respectivamente: Capítulo Primeiro, Capítulo 18º, Capítulo Doze, (Sem Capítulo), Capítulo sem Sexo, Capítulo 99, Capítulo Vinte, Capítulo I (Novamente) e Capítulo)

 

            Em Cochabamba, na Bolívia, num concurso para coveiros instituído pela municipalidade, obtive o segundo lugar, o que me valeu um contrato por dois anos com direito a dormir no cemitério. Pablo Morales, que foi nomeado comigo e obteve o primeiro lugar devido à sua larga experiência agrícola, era de pouca conversa e tinha verdadeira paixão pelo seu métier, ficando irritadiço e insuportável quando não tínhamos nada a fazer e nos víamos obrigados a cruzar os braços, como mineiros em greve. O que nos valia eram as revoluções constantes no país, que nos davam sempre um trabalho intensivo durante uma semana ou duas – ou então uma ou outra epidemia imprevista e fulminante, que arrasava pelo menos um terço da população. De uma feita chegamos a receber duzentos mortos de uma localidade vizinha, onde ocorrera um terremoto de magníficas proporções e que proporcionou a Pablo (e a mim também) alguns serões maravilhosos, à pálida luz da lua.

               Acusados de furto e violação de sepulturas, tivemos que escapar-nos às pressas numa noite de chuva e refugiar-nos em território peruana, onde Pablo foi morto a tiros por um caçador de codornas e eu, faminto, me identifiquei como sobrinho do rei da Bessarábia, até que pudessem provar o contrário. Em Cuzco tomei-me de amores por uma rapariga que não sabia uma só palavra de árabe, nem eu tampouco, e pude manter-me dignamente à sua custa durante alguns meses, até que o governo me deportou para a ilha de Sumatra num cargueiro que levava lhamas, algumas bugigangas de grosseira fabricação e meia dúzia de espiões comunistas. Da ilha de Sumatra pulei, não sei como, para a de Madagáscar, de onde alcancei a nado a costa de Moçambique, batendo todos os recordes de distância, mas incógnito. Empreguei-me como professor de natação na cidade de Beira, onde, falando embora o português, não conseguia entender o português deles e tive necessidade de arranjar um intérprete mestiço, que me roubou as poucas economias que tinha e ainda me levou o calção de banho, obrigando-me a mudar temporariamente meu sistema de ensino, que de prático passou a teórico.

               Nas horas vagas compunha poemas futuristas, que um de meus alunos se incumbia de traduzir paro o português local e eram publicados, às quintas-feiras, no Observador Econômico e Financeiro – seção feminina. Demitido a bem do serviço público, inscrevi-me numa maratona de danças e fui transportado semi-inconsciente para um hospital de tuberculosos, onde vim a falecer na madrugada de 15 de setembro de 1934. Mas o atestado de óbito fora passado um pouco às pressas e obtive alta dois meses depois, mais forte que um touro da Pomerânia ou de qualquer outra parte do globo.

                Quando dei por mim estava em pleno coração da África Equatorial Francesa, caçando elefantes e traduzindo Virgílio para o alemão, a pedido do padre Kremmer, que não sabia latim. Com a renda obtida de 15 mil elefantes mortos e alguns leopardos empalhados estabeleci-me em Brazzaville com um negócio de falsos diamantes e uma modesta casa de tolerância, servida por três nativas e duas francesas já avançadas em anos e que morreram logo depois. Vítima de injusta perseguição da polícia, mudei-me atabalhoadamente para Leopoldville, que fica logo defronte, e onde, fazendo-me passar por filho bastardo do rei dos belgas, obtive permissão para instalar-me com um novo prostíbulo, que se incendiou pouco depois. Reduzido à miséria, deflorei a filha de um capitalista que era dono de uma minha de estanho, e com o dinheiro da chantagem que lhe impus montei uma fábrica de relíquias e outros objetos de culto religioso, que prosperou durante algum tempo mas acabou indo à falência devido à perseguição do clero local. Como o capitalista ainda dispusesse de uma outra filha virgem, dei-lhe o mesmo destino da irmã e impus dessa vez um preço mais alto do que da primeira, o que me permitiu financiar com êxito a minha candidatura às próximas eleições locais e ser eleito deputado por expressiva margem de votos. Como não conseguisse provar minha nacionalidade belga, cassaram-me o mandato arbitrariamente e ainda me moveram um processo pelos dois defloramentos (que já eram três) executados nas barbas do tal capitalista do estanho, do que me resultou ser condenado à prisão perpétua e a trabalhos forçados numa mina de diamantes explorada pelo Estado. Consegui fugir num helicóptero que pousou justamente a dois passos de minha picareta: eu e mais dois sentenciados belgas que me ajudaram a torcer o pescoço aos afoitos aviadores e descobrir, dos céus, a direção exata do continente americano. Em Nova York fomos recebidos com as honras de heróis transatlânticos e entrevistados por uma cadeia de trinta mil jornais, embora tivéssemos a precaução de não proferir uma única palavra em inglês ou mesmo em qualquer outra língua viva. Com um contrato que nos ofereceram a Universal-International e uma fábrica de minhocas em conserva para uso de pescadores, conseguimos afinal separar-nos uns dos outros e rumar cada um para uma direção diferente (a fim de evitar suspeitas), a mim cabendo o México e as demais repúblicas da América Central, que atravessei disfarçado em padre e mesmo de cônego – como aconteceu em Tampico – até dar com os costados na bela capital da Colômbia, que inexplicavelmente nesse dia, nem no dia seguinte, não se achava em revolução.

             (Interrompido pela chegada da pseudoenfermeira, que veio aplicar-me o soro da juventude, que – agora eu sei – não passa do chamado soro da verdade, largamente aplicado durante a guerra e durante a paz. Seja o que Deus quiser.)

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How do you say it?

Post #1

How do you say… in English? (Como se diz “x” em inglês?)

A

Vamos começar do começo: eis alguns termos importantes que você pode ter se perguntado (ou perguntado ao seu professor de inglês) e talvez não tenha obtido a resposta desejada.

a gota d’água − the last straw

acabar a carga (do celular) – run out of charge: My cell phone ran out of charge.

água com gás – sparkling water / água sem gás – flat water

ainda (o filme / a série) não saiu em DVD / bluray it’s not out on DVD / bluray yet.

amigo secreto − Secret Santa – Who’s your Secret Santa this year? Quem é seu amigo secreto este ano?

anestesiarput somebody under (Do you want to call somebody before I put you under?)

arrumadeira (de hotel) – turndown maid

assumir (homosexual) – come out of the closet

ateliê – art studio

aula geminada – double period class, a double period

Gostou? No próximo post tem mais. See you!

Bom humor faz bem à saude – A Graça na Escola

Parca meia dúzia de gatos pingados (chovia) compareceu ao enterro de Bentinho, vulgo Dom Casmurro. Criatura ensimesmada, carrancuda e mal-humorada, era sócio remido da tribo dos Sorumbáticos e membro vitalício da academia dos Macambúzios.

Um professor hábil deve seguir carreira diametralmente oposta à do triste Dom Casmurro. Como dizia o anúncio da Brahma: “Mau humor faz mal à saúde.”  E a um relacionamento interpessoal sadio também. Uma pitada – talvez até uma boa dose – de bom humor deve ser ingrediente indispensável para uma aula bem sucedida e agradável.

Todos se sentem mais à vontade numa sala de aula onde o professor sabe apreciar – e rir de – uma brincadeira oportuna, mesmo quando o assunto da aula é sério e principalmente quando a segunda-feira é fria e chuvosa.

O humor é uma das mais democráticas manifestações humanas. Quando uma sala de aula ri em uníssono, desaparecem, como por mágica, todas as cercas sociais e muros psicológicos que separam alunos e professores: não mais mestres e discípulos, sábios e ignorantes, sacerdotes do saber e fiéis devotos, ricos e pobres, jovens e velhos, homens e mulheres – apenas seres humanos se divertindo juntos.

O professor, ao injetar humor oportuno e sadio em suas aulas, abre no espírito de seus alunos brechas por onde maravilhas escapam: motivação, prazer de aprender, criatividade, companheirismo, alegria e muitas outras; pois o humor desmistifica todas as coisas e as escolas, em grande parte, sofrem por estarem entronizadas e isoladas. O humor escancara as portas que aos comodistas e complacentes aprazeria continuarem trancadas, cobertas de pó e teias de aranha. O humor ventila o ar viciado do formalismo, do academicismo e do pensamento abafado.

Sem humor não há solução. Professor, ria para e com os alunos; sua tarefa, e a deles, se tornará mais prazerosa e produtiva – e isso não é brincadeira. Quem ri, ri melhor.